Um ano após carta de Trump a Lula e anúncio de tarifas: relembre os principais capítulos da disputa comercial entre EUA e Brasil

Um ano após carta de Trump a Lula e anúncio de tarifas: relembre os principais capítulos da disputa comercial entre EUA e Brasil

Nesta quinta-feira (9), completa um ano que o presidente dos Estados Unidos , Donald Trump , enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciando uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado americano. O documento marcou uma escalada nas tensões comerciais entre os dois países.

Um ano depois, o governo brasileiro tenta evitar que novas tarifas propostas pelos EUA entrem em vigor.

Ao longo dos últimos 12 meses, algumas das tarifas foram revistas, outras mantidas e novas cobranças foram anunciadas pelo governo americano.

Agora no g1

Veja abaixo os principais capítulos da disputa comercial entre Brasil e EUA:

A carta que deu início à crise

A ofensiva ganhou força com a carta enviada por Trump a Lula em 9 de julho de 2025 . No documento, o presidente americano anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e justificou a decisão com argumentos políticos e comerciais.

Entre os motivos citados estavam o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF), críticas à atuação da Corte brasileira em relação às plataformas digitais e alegações de que a relação comercial entre os dois países seria desfavorável aos Estados Unidos.

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Trump manda carta a Lula e anuncia tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — Foto: Reprodução

À época, economistas e representantes do setor produtivo apontaram que a decisão tinha forte componente político e alertaram para riscos às exportações brasileiras e aos empregos ligados ao comércio com os Estados Unidos.

Ao justificar a medida, Trump também afirmou que a relação comercial dos EUA com o Brasil é "injusta". "Nosso relacionamento, infelizmente, tem estado longe de ser recíproco", escreveu.

Apesar do argumento, dados do Ministério do Desenvolvimento mostram o contrário. O Brasil tem registrado déficits comerciais seguidos com os EUA desde 2009 — ou seja, há 16 anos. Isso significa que o Brasil gastou mais com importações do que arrecadou com exportações.

No documento, Trump também afirma que determinou a abertura de uma investigação contra o Brasil por práticas comerciais desleais ou injustas. A investigação foi oficialmente aberta dias depois, em 15 de julho de 2025.

A ampliação do tarifaço

A carta não surgiu de forma isolada. Meses antes, em abril de 2025, Trump já havia anunciado as chamadas tarifas recíprocas para diversos países, impondo uma taxa adicional de 10% sobre produtos brasileiros.

Com o anúncio de julho, parte das exportações brasileiras passou a enfrentar uma sobretaxa muito maior. Cerca de 22% das exportações brasileiras ficaram sujeitas à tarifa adicional de 40%, além de outras cobranças aplicadas a determinados setores.

Entre os segmentos mais afetados estiveram produtos industriais, máquinas, equipamentos, café solúvel e produtos ligados à cadeia do aço e do alumínio.

Em junho do ano passado, o republicano elevou as taxas sobre aço e alumínio, com base na Seção 232 — instrumento separado da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) .

As cobranças, que até então eram de 25%, passam a ser de 50%, conforme decreto assinado pelo presidente Donald Trump. A medida afeta o Brasil.

Já em junho deste ano, os Estados Unidos concluíram uma investigação que acusa o governo brasileiro de adotar práticas que "oneram ou restringem" o comércio com os norte-americanos. Como resultado da investigação, o Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras .

O órgão, porém, incluiu uma lista de exceções para produtos considerados estratégicos pelos EUA, como carne, frutas, café, aeronaves, terras raras, entre outras.

🔎O relatório cita temas como o funcionamento do PIX, a regulação de plataformas digitais, acordos comerciais firmados pelo Brasil, combate ao desmatamento ilegal, acesso ao mercado de etanol, proteção à propriedade intelectual e políticas anticorrupção.

Além disso, a investigação também concluiu que a União Europeia e 59 países, entre eles o Brasil, falharam em proibir e fiscalizar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Como resposta, o governo americano propôs a aplicação de tarifas adicionais de 12,5% sobre todos os produtos desses países.

Essas tarifas ainda não entraram em vigor. O governo brasileiro ainda tenta evitar que elas passem a valer.

Pela legislação americana, a investigação formal precisa ser concluída e uma série de consultas públicas deve ser realizada antes que as medidas entrem em vigor. O prazo legal para a definição e eventual aplicação de medidas contra o Brasil é 15 de julho .

Neste mês, o governo brasileiro apresentou uma resposta formal à conclusão da investigação sobre a proposta do novo tarifaço . O Brasil argumentou que o USTR não comprovou que políticas brasileiras sejam discriminatórias ou criem barreiras ao comércio dos EUA.

O Executivo também afirmou que críticas americanas ao PIX e a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) não são questões comerciais , mas divergências sobre políticas internas brasileiras.

Segundo o Itamaraty, usar esses temas para justificar sanções comerciais ampliaria excessivamente o alcance da legislação americana usada na investigação.

A combinação das tarifas propostas pelos Estados Unidos pode elevar a carga total a 37,5%, caso as medidas sejam implementadas.

Nos bastidores, a avaliação de integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty é que a recomendação feita pelo USTR tem caráter político e desconsidera os argumentos técnicos apresentados pelos negociadores ao longo do último ano.

Esses interlocutores indicam como exemplo o fato de os documentos referentes ao início da investigação comercial, de julho de 2025, e da recomendação pelas tarifas, de junho de 2026, serem “praticamente iguais”.

O governo Lula tem atribuído as ameaças tarifárias dos EUA a articulações da família Bolsonaro, sobretudo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, contra instituições brasileiras. O presidente, inclusive, já chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de "traidores da pátria".

Sob reserva, integrantes do governo dizem não acreditar na reversão completa do tarifaço, somente em uma eventual redução ou anúncio de exceções.

A reação do governo brasileiro

Em manifestação pública após o anúncio de Trump, o presidente afirmou que o Brasil não aceitaria ser "tutelado por ninguém" e informou que qualquer aumento unilateral de tarifas seria respondido com base na Lei da Reciprocidade Econômica.

O governo brasileiro também reforçou que questões relacionadas ao julgamento dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro e aos processos em curso no STF são de competência exclusiva da Justiça brasileira.

Ao longo do período, representantes do governo e do empresariado passaram a defender a diversificação de mercados e a ampliação de acordos comerciais como forma de diminuir a dependência do mercado americano.

Para tentar reverter as medidas, o presidente Lula se encontrou com o presidente Trump em mais de uma ocasião. Além disso, membros dos dois governos se reuniram diversas vezes para tratar do tema.

Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), falam a jornalistas antes de reunião em Kuala Lumpur. — Foto: Evelyn Hockstein/Reuters

Em outubro do ano passado, os dois se reuniram na Malásia. Após o encontro, Lula afirmou que a reunião foi "surpreendentemente boa" e que teve a impressão de que logo não haverá problema entre os países.

"Se depender do Trump e de mim, vai ter acordo", disse o presidente.

Os dois chefes de estados se reuniram ainda em maio deste ano. O presidente Lula foi até a Casa Branca , em Washington, nos Estados Unidos.

Recuos e mudanças nas tarifas

Em novembro do ano passado, após reunião entre o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para discutir as tarifas, o governo americano anunciou a retirada da tarifa de 40% de alguns produtos brasileiros.

A medida beneficiou a carne bovina, café, açaí, cacau e diversos outros produtos. São mais de 200 itens acrescentados à lista anterior de quase 700 exceções ao tarifaço imposto ao Brasil.

Na semana anterior, o governo Trump já havia reduzido as tarifas de importação de cerca de 200 produtos alimentícios, para vários países. No caso do Brasil, a alíquota havia caído de 50% para 40%.

Já em fevereiro deste ano, a Suprema Corte americana concluiu que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), utilizada por Trump para justificar parte das tarifas, não autorizava o presidente a criar as cobranças da forma como havia feito .

A decisão derrubou uma parcela significativa do tarifaço anunciado pelo governo americano, incluindo medidas que haviam atingido produtos brasileiros.

Em resposta, Trump recorreu a outro instrumento legal para manter sua política comercial e anunciou uma nova tarifa global de 10%, válida por 150 dias . Essa medida deve valer até o final deste mês.

Veja abaixo linha do tempo:

Em abril de 2025 , ao anunciar as chamadas tarifas recíprocas para diversos países , Trump aplicou uma taxa adicional de 10% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA.

Em junho do mesmo ano , o republicano elevou as taxas sobre aço e alumínio para 50% , com base na Seção 232 — instrumento separado do IEEPA.

No dia 9 de julho de 2025 , T rump mandou uma carta pública ao presidente Lula e anunciou uma tarifa de 40% sobre produtos brasileiros , elevando a alíquota total de diversos itens para 50%. A taxa estava prevista para entrar em vigor em 1º de agosto de 2025. A medida, no entanto, veio acompanhada de uma extensa lista de exceções .

Em 15 de julho de 2025 , após pedido de Trump, governo dos EUA abre investigação comercial contra o Brasil .

Em outubro de 2025 , Lula se reuniu com o presidente Trump na Malásia para tratar das tarifas aos produtos brasileiros.

Já em novembro , após Trump iniciar negociações diretas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ministros dos dois países se reunirem, os EUA retiraram a tarifa de 40% de novos itens, incluindo café, carnes e frutas.

Em fevereiro de 2026 , a Suprema Corte invalidou o uso da IEEPA para tarifas amplas . Caíram, assim, a taxa “recíproca” de 10% e a sobretaxa de 40% sobre o Brasil. Aço e alumínio não foram afetados, pois se baseiam na Seção 232.

No mesmo dia , Trump anunciou uma tarifa global temporária de 10% por 150 dias , com base em um dispositivo da lei comercial de 1974, que se soma às tarifas já existentes. (essas tarifas ficam valendo até o final de julho).

Em maio de 2026 , o presidente Lula foi aos EUA para se reunir com Trump .

Em junho de 2026 , os EUA concluem que Brasil tem práticas 'irrazoáveis' e propõem tarifa de 25% sobre produtos nacionais.

No mesmo mês, os EUA propõem sobretaxa a 59 países e à União Europeia por falha no combate ao trabalho forçado ; Brasil está na lista com sobretaxa de 12,5%.

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